O boxe é um dos esportes que mais atraí a atenção de escritores, cineastas, músicos e demais artistas. Dezenas de obras-primas foram produzidas sobre esse esporte, que visto de longe pode parecer apenas uma barbárie praticada por brutamontes acéfalos.
Mas muitos dizem que o boxe é uma das metáforas mais cruéis da vida. Um ringue, dois oponentes. A vitória e a derrota como possibilidades. Sem empate, sem prorrogação. Cada movimento pode levar a glória ou a derrocada. Os olhos da platéia seriam como os olhos da sociedade, que não perdoam nenhum movimento em falso.
Sendo o boxe uma representação da vida, a arte não poderia deixar de representá-lo.
No cinema, é inevitável lembrar de Rocky Balboa. O personagem brucutu, porém meigo, é uma das figuras mais carismáticas da sétima arte. O primeiro filme da série tomou o mundo de assalto. Rocky, um capanga da periferia de Philadelphia e boxeador amador, era um sujeito solitário, sem cultura, sem estudos, sem perspectivas. Até que um dia, surge a oportunidade de sua vida. Encarar o invicto campeão mundial dos pesos pesados, que procurava algum lutador desconhecido para desafiar. As chances de vitória são perto de zero, mas Rocky Balboa aceita o desafio.
O mais interessante de “Rocky” é que ele não ganha a luta. A graça da coisa não está tanto na vitória, mas sim na beleza de se lutar como um bom lutador. Perdedores e vencedores são termos relativos, e não tão importantes, quando se tem certeza de que se lutou com honra.
Com uma abordagem mais profunda, há a obra prima, “Touro Indomável”, de Martin Scorcesse. O filme conta a história do bruto Jake La Mota (interpretado magistralmente por Robert De Niro). O boxeador lutava com o coração em um estilo completamente animalesco, tal qual um touro. Uma máquina de socos, que destroçava qualquer rosto a sua frente. Até na hora de perder, La Mota era como um touro teimoso, que mesmo ferido, se recusa a cair.
Ao contrário de Rocky, La Mota não era uma figura doce ou meiga. Em casa, refletia sua personalidade violenta, ao sentir um ciúme doentio de sua esposa. O filme também mostra, sem maniqueísmo, os bastidores do esporte. Os acordos debaixo do pano, o dinheiro, as bolsas de apostas, a luta para entrar no peso, o álcool, e, o mais importante: mostra como a glória e a decadência andam perigosamente juntas. A filmagem em preto e branco, as atuações impecáveis de De Niro e Joe Pesci e o jeito poético, e ao mesmo tempo, visceralmente violento, de se filmar as lutas, fazem desse filme um dos grandes clássicos do cinema.
Na literatura o esporte também é muito bem representado. Hemingway, por exemplo, era um exímio lutador de boxe, e lendo as suas obras, é possível traçar um paralelo com o esporte. Cada frase curta é como um jab. Cada parágrafo cortante é como um direto seco, que não perdoa o oponente; no caso o leitor.
Engraçado que Hemingway dava aula de boxe para grande parte da geração perdida - escritores estrangeiros que moravam em Paris, na década de 30 - inclusive para James Joyce. É no mínimo inusitado imaginar o cerebral escritor irlandês treinando boxe.
Há também outros exemplos, como o recém-lançado no Brasil, “Por um bife e outras histórias de boxeadores” de Jack London, outro escritor lutador. E “Garota de Ouro”, que é na verdade uma seleção de contos de F.X. Toole sobre o mundo do boxe. O filme – ganhador do Oscar de 2005 – é uma mistura de vários desses contos. Para quem gostou do filme, a leitura do livro é obrigatória, pois o livro se aprofunda ainda mais nos personagens e há algumas histórias geniais sobre o mundo da luta que não estão no filme.
Na música também há canções excelentes sobre o tema, como “Boxers” de Morrissey, que canta a dor de um boxeador que perde na sua cidade natal e se vê solitário, decadente, e sentindo uma dor física imensurável. No Brasil, o cantor, e boêmio Nelson Gonçalves começou sua vida como boxeador, tendo sido inclusive campeão paulista dos pesos médios.
Mesmo que você não esteja disposto a subir em um ringue e correr o risco de quebrar o seu nariz, ou de ganhar um, nada bonito, olho roxo, não perca a chance de entrar em contato com essas obras, que sem dúvida alguma vão nocautear muitos preconceitos.